Blog da Paulinha

Literatura

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

Erico Verissimo nasceu em 1905, em Cruz Alta, RS, descendente de tradicional família estancieira, depauperada com a crise na pecuária do início do século 20. Em 1930, mudou-se para Porto Alegre e, em 1932, lançou seu primeiro livro, Fantoches, uma coletânea de contos. Mas seu futuro como "contador de histórias", como gostava de se chamar, começou a ser delineado no ano seguinte, com o lançamento de Clarissa. Olhai os Lírios do Campo, de 1938, atinge um extraordinário sucesso de público. A partir daí Erico torna-se um escritor conhecido e renomado no país inteiro, e depois internacionalmente, com a tradução dos romances. Um de seus grandes méritos é ter revelado o Sul aos brasileiros. Segundo define o crítico literário Antonio Candido: "O Rio Grande do Sul existe muito como visão do Erico".

Sua obra-prima é o romance O Tempo e O Vento: uma trilogia de quase 3 mil páginas, composta por O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1961/1962). Considerado o principal romance histórico brasileiro, O Tempo e o Vento levou mais de quinze anos para ser escrito. Narra a trajetória de duas famílias, os Terra-Cambará e os Amaral, por mais de dois séculos de vida, mesclando-se aos principais episódios da formação gaúcha. Em 1985, foi adaptado para a televisão por Doc Comparato. 

Livro 1: O Continente
Publicados originalmente em 1949, a saga de "O Tempo e o Vento" começa com os dois volumes de "O Continente". Esta primeira parte da trilogia narra o nascimento do Estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra, Caré, Cambará e Amaral.

Capítulo “Um certo Capitão Rodrigo”
Alguns capítulos dos três romances merecem destaque, seja pelo apuro estilístico do autor, seja pela temática desenvolvida. “Um Certo Capitão Rodrigo”, presente na primeira parte da trilogia, "O Continente", merece essa atenção especial. O capítulo tem o mérito de retratar, ou recriar, a imagem do homem gaúcho forte, bravo, destemido, na figura do personagem principal: capitão Rodrigo Cambará.

A cena da chegada do capitão Rodrigo à cidade de Santa Fé já é suficiente para passar essa ideia do homem gaúcho, tanto pelas vestimentas como pela personalidade:

“Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal.

Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:

– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!
– Pois dê”

A descrição do valente e imponente capitão entrando no pacato vilarejo, seguida do desaforado cumprimento da chegada, antecipa o incômodo que essa figura produzirá em tal espaço. O dono da resposta curta e grossa que aceita o confronto, porém, não se tornará seu antagonista na história. Será seu futuro cunhado, Juvenal Terra.

A importância desse capítulo está no fato de que – além de apresentar a figura típica do gaúcho encarnada pelo capitão Rodrigo – mostra a união dos dois grandes sobrenomes que marcarão, na obra, a formação do estado do Rio Grande do Sul: os Terras e os Cambarás.

Apaixonando-se perdidamente por Bibiana Terra, o capitão a conquista após minar sua resistência e a de sua família, além de ter vencido em um duelo o pretendente rico de Bibiana: Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral. Essa união representa, estruturalmente, o eixo das duas famílias que irão protagonizar toda a trilogia.

O carisma de Rodrigo Cambará acaba por conquistar, de fato, não apenas Bibiana Terra, mas vários moradores de Santa Fé, como o padre Lara e Juvenal Terra, com quem monta um negócio. A figura do capitão, no entanto, distancia-se em todos os momentos do perfil do bom moço. Mesmo depois de casado com Bibiana, Rodrigo Cambará mantém o gosto pelo carteado, pela bebida e, principalmente, por outras mulheres.

O antagonista de Rodrigo Cambará é Bento Amaral, com o qual trava uma luta atrás do muro do cemitério, após um desentendimento em uma festa de casamento. Nesse confronto, o filho do coronel, desonrando a batalha, utiliza uma arma de fogo contra o capitão.

Antes de dar o tiro à traição, Amaral quase recebe a marca do capitão Rodrigo: um “R” na testa. Surpreendido pelo disparo, no entanto, o capitão só tem a possibilidade de talhar um “P”. Falta-lhe tempo para completar a letra “R”. A cena final desse capítulo é a invasão do casarão da família Amaral. Nesse episódio, morre o capitão Rodrigo Cambará, deixando órfão o filho Bolívar:

“O tiroteio começou. A princípio ralo, depois mais cerrado. O padre olhava para seu velho relógio: uma da madrugada. Apagou a vela e ficou escutando. Havia momentos de trégua, depois de novo recomeçavam os tiros.

E assim o combate continuou madrugada adentro. Finalmente se fez um longo silêncio. As pálpebras do padre caíram e ele ficou num estado de madorna, que foi mais uma escura agonia do que repouso e esquecimento. O dia raiava quando lhe vieram bater à porta. Foi abrir. Era um oficial dos farrapos cuja barba negra contrastava com a palidez esverdinhada do rosto. Tinha os olhos no fundo e foi com a voz cansada que ele disse:

– Padre, tomamos o casarão.
Mas mataram o capitão Rodrigo – acrescentou, chorando como uma criança.
– Mataram?

O vigário sentiu como que um soco em pleno peito e uma súbita vertigem. Ficou olhando para aquele homem que nunca vira e que agora ali estava, à luz da madrugada, a fitá-lo como se esperasse dele, sacerdote, um milagre que fizesse ressuscitar Rodrigo.

– Tomamos o casarão de assalto. O capitão foi dos primeiros a pular a janela. – Calou-se, como se lhe faltasse fôlego.
– Uma bala no peito...”

Livro 2: O Retrato
Rodrigo Terra Cambará decide voltar a sua terra-natal, Santa Fé, após ter ido estudar medicina em Porto Alegre. Nesse segundo romance da trilogia acompanha-se a decadência social de Santa Fé na passagem para o século 20 causada por interesses e jogos políticos.

Livro 3: O Arquipélago
O terceiro e último romance da trilogia "O tempo e o vento" narra a volta de Rodrigo Cambará à Santa Fé depois de passar muitos anos no Rio de Janeiro ao lado do então presidente Getúlio Vargas, seu amigo e aliado. Assim, o poder da família Terra Cambará, que era somente local, adquire em "O Arquipélago" um âmbito nacional. Após o fim do Estado Novo, Rodrigo está derrotado politicamente e doente. Rodrigo se vê na luta de não morrer na cama, uma vez que “Cambará macho não morre na cama”.

3.10.14

O Cortiço

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

O Autor
Caricaturista, jornalista, diplomata e romancista, Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo era filho de vice-cônsul português. Nasceu em São Luís do Maranhão em 1857 e faleceu em Buenos Aires, em 1913. Durante a mocidade, estudou e trabalhou, como caixeiro e guarda-livros, em sua cidade natal, período em que já revelava interesse por desenho e pintura, cujas técnicas empregaria na caracterização dos personagens de seus romances. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1876, juntando-se ao irmão mais velho, o comediógrafo Arthur de Azevedo (1855-1908).  
O Cortiço é considerado seu melhor romance. Foi escrito pouco antes de o autor decidir abandonar a literatura e dedicar-se exclusivamente à atividade diplomática. A obra, mais do que contar a história dos personagens, trata da ambição e exploração do homem pelo homem, por meio da rivalidade entre o ganancioso comerciante João Romão e o próspero comendador Miranda. Enquanto João Romão aspira à riqueza, Miranda, já rico, ambiciona a fidalguia. Entre os dois está a gentalha. E o próprio cortiço.

Vamos ao resumo?
 
O romance segue claramente duas linhas mestras em seu enredo, cada uma delas girando em torno de um imigrante português. De um lado temos João Romão, o dono do cortiço, do outro Jerônimo, trabalhador braçal que se emprega como gerente da pedreira que pertence ao primeiro.
João Romão enriquece às custas de sua obsessão pelo trabalho de comerciante, mas também por intermédio de meios ilícitos, como os roubos que pratica em sua venda e a exploração da amante Bertoleza, a quem engana com uma falsa carta de alforria. Ele se torna proprietário de um conjunto de cômodos de aluguel e da pedreira que ficava ao fundo do terreno. Aumenta sua renda e passa a se dedicar a negócios mais vultosos, como aplicações financeiras. Aos poucos, refina-se e deixa para trás a amante.
Miranda, comerciante de tecidos e também português, muda-se para o sobrado que fica ao lado do cortiço. No início disputa espaço com o vizinho, mas, aos poucos, os dois percebem interesses comuns. Miranda tem acesso à alta sociedade, posição que começa a ser almejada por João Romão, este, por sua vez, tem fortuna, cobiçada pelo comerciante de tecidos que vive às custas do dinheiro da esposa. Logo, uma aliança se estabelece entre eles. Para consolidá-la, planeja-se o casamento entre João Romão e a filha de Miranda, Zulmira. João se livra de Bertoleza, devolvendo-a aos seus antigos donos. 
Jerônimo assume a condição de gerente da pedreira de João Romão e passa a viver no cortiço com a esposa Piedade. Sua honestidade, força e nobreza de caráter logo chamam a atenção de todos. No entanto, seduzido pela envolvente Rita Baiana, assassina o namorado desta, Firmo. Jerônimo abandona a esposa e vai viver com Rita. Entra então em um acelerado processo de decadência física e moral, assim como sua esposa, que termina alcoólatra.
A decadência atinge também outros moradores do cortiço. É o caso de Pombinha, moça culta que aguardava a primeira menstruação para se casar. Seduzida pela prostituta Léonie, abandona o marido e vai viver com a amante, prostituindo-se também.

2.10.14

Crosfire

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

Mais uma quinta sexy chegou. 
Estavam ansiosas? Hoje falaremos da Trilogia Toda Sua.

Viaje nessa intensa a paixão de Eva e Gideon nestes 3 romances intensamente sensuais da trilogia Crossfire escrita por Sylvia Day - 1º lugar na Lista de Best-sellers do The New York Times. 
Eva Tramell tem 24 anos e acaba de conseguir um emprego em uma das maiores agências de publicidade dos Estados Unidos. Tudo parece correr de acordo com o plano, até que ela conhece o jovem bilionário Gideon Cross, o homem mais sexy que ela — e provavelmente qualquer outra pessoa — já viu.
Gideon imediatamente se interessa por Eva, que faz tudo o que pode para resistir à tentação. Mas ele é lindo, forte, rico, bem-sucedido, poderoso e sempre consegue o que quer — e é claro que Eva acaba se entregando.
Uma relação intensa começa. O sexo é incrível. Capaz de levar os dois a extremos a que jamais tinham chegado. E, então, eles se apaixonam — o que pode ser tanto a chave para um futuro feliz quanto a faísca que trará de volta os traumas do passado.

Vamos ler um trechinho do começo de cada livro?

Toda sua
Gideon Cross entrou na minha vida como um relâmpago na escuridão...
Ele era inteligente, bem-sucedido, rico e muito lindo. Fiquei obcecada por ele como nunca tinha ficado por ninguém, por nada. Ansiava por seu toque como uma droga, mesmo sabendo que aquilo acabaria me destruindo. Eu tinha meus problemas, e ele fez com que viessem à tona muito facilmente.  Gideon sabia. Ele também tinha seus problemas. E nós acabaríamos sendo o espelho que refletia os traumas - e os desejos - mais secretos do outro.
Seu amor me transformou, e eu rezava para que nosso passado não nos separasse...

Profundamente sua
Ele era minha droga, um vício que eu não tinha a menor vontade de largar.
Gideon Cross era tão bonito e notável por fora quanto atormentado e problemático por dentro. Ele era uma chama ardente e viva que me consumia no prazer obscuro de uma paixão enlouquecida. Eu não conseguia me afastar dele. E não queria. Ele era meu vício¿ meu desejo¿ ele era meu.
Tínhamos passados complicados. Nunca daríamos certo juntos. Era difícil demais, doloroso demais... Mas às vezes parecia perfeito. Os momentos em que nos deixávamos levar por nosso desejo desesperado eram maravilhosos. Acabaríamos escravos da necessidade, e nossa paixão nos levaria além dos limites da mais doce e perigosa obsessão...

Para sempre sua
A partir do momento que conheci Gideon Cross, senti nele algo que eu precisava. Algo ao qual eu não podia resistir. Vi a perigosa e descuidada alma dentro dele - tão parecida com a minha. Estava atraída por ele. Precisava dele assim como precisava de meu coração batendo.
Ninguém sabe o quanto ele se arriscou por mim. Como eu tinha sido ameaçada ou somente o quão escura e desesperadora a sombra de nosso passado se tornaria. Envolvidos pelos nossos segredos, tentamos desafiar as evidências. Fizemos nossas próprias regras e nos rendemos completamente ao sensual poder de ser possuído...

2.10.14

TCC e Monografia. Qual a diferença?

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

Ester termos muitas vezes causam confusão em quem precisa apresentar estes tipos de trabalho em sua faculdade. 
Mas isso não será mais um problema! Vamos lá?

Para começar... Monografia é um TCC, mas um TCC não é necessariamente uma monografia.

Heim???

O TCC é o Trabalho de Conclusão de Curso. E todo aluno universitário, deve desenvolver para demonstrar o conhecimento científico adquirido ao longo de sua graduação ou pós-graduação. Entretanto, o TCC pode ser apresentado de várias formas. As principais são: monografia, artigo científico, relatório de estágio, tese para doutorado e dissertação para mestrado. Enfim, existem esses e vários outros tipos de trabalhos que são aceitos como TCC, a decisão de qual tipo deve ser feito depende do curso e da instituição de ensino.

A palavra "monografia" decorre da junção de duas outras ("mono" + "graphos"), cujo sentido sugere um texto sobre um único tema e/ou realizado por uma pessoa, um trabalho individual.Segundo o dicionário Aurélio é “...um estudo minucioso a fim de esgotar determinado tema relativamente restrito", ou seja, monografia é um trabalho científico que se caracteriza pela especificação do assunto/problema. E dessa forma, objetiva-se com a pesquisa apresentar uma contribuição relevante ou original à ciência.

Uma monografia, na maioria da vezes, é feita por apenas uma pessoa e deve ser escrita em uma linguagem clara e objetiva, além de ter uma sequência lógica das ideias sobre as pesquisas e os resultados obtidos.
 
Dúvidas sanadas? 
Se precisar de alguma orientação, fica esse contato. 


30.9.14

A Gramática do Padre Anchieta

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

Quando veio ao Brasil, com o intuito de auxiliar na catequização dos índios, o Padre Anchieta se empenhou em aprender a língua tupi e esboçou uma gramática, publicada em 1595, intitulada Arte de Gramática da Língua mais usada na costa do Brasil.
A gramática serviria para auxiliar os padres na catequização dos índios, pois, ao compreender a estrutura da língua tupi, poderiam mais facilmente se aproximar dos nativos e expressar os ensinamentos da fé cristã.

29.9.14

O Blog da Paulinha abre espaço para você!

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

Você quer divulgar seu produto, obra literária ou serviço através de entrevistas ou postagens aqui no Blog da Paulinha? 
 
Agora você pode!

Entre em contato agora mesmo enviando um e-mail para mapalurj@gmail.com e solicite o formulário para entrevista. 
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Cantores, Compositores e Grupo Musical)
 
A sua entrevista será postada aqui no Blog da Paulinha e divulgada nas redes sociais. 
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O Blog da Paulinha não cobra nada em dinheiro, favores ou presentes em forma de produtos para realizar as entrevistas ou postagens. 
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26.9.14

Livro do Dia: Dom Casmurro

Postado por Paula R. Cardoso Bruno |

Como proposta do Blog, estaremos falando a cada sexta feira de um livro nacional diferente. 
Hoje falaremos sobre uma das maiores obras nacionais do grande Machado de Assis. Você pode encontrar aqui no Blog a Biografia do autor.
Dom Casmurro faz parte da Trilogia Realista de Machado de Assis, composta também por Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba.
Machado de Assis conseguiu como poucos desentranhar dos acontecimentos políticos de seu tempo o significado humano mais profundo. Assim, o ambiente aparentemente pacífico da vida institucional brasileira da segunda metade do século XIX escondia a violência da escravidão e do sistema de troca de favores que norteava a relação entre ricos e pobres. Ao falar do Brasil, Machado desnudava o ser humano em sua miséria moral. E construía a obra mais genial de nossa literatura.
 
Importância do livro
 

A temática da traição, presente em Dom Casmurro, é instigante por si só. A traição conduz o ser humano aos limites da racionalidade e à beira da perda da razão. No entanto, o traço fundamental da obra é o questionamento da verdade, entendida como um dos edifícios do realismo a que o próprio escritor pertencia. A intensidade desse diálogo – com o tempo, com as emoções humanas e com a arte – faz de Dom Casmurro um romance de releituras sempre proveitosas.
As marcas mais evidentes do estilo machadiano estão presentes no livro: a digressão (suspensão da narrativa para o desenvolvimento de reflexões paralelas), a metalinguagem (discurso sobre a própria arte) e o diálogo com o leitor, quase sempre conduzido com fina ironia.

Vamos lá?

RESUMO DO LIVRO

O romance inicia-se numa situação posterior a todos os seus acontecimentos. Bento Santiago, já um homem de idade, conta ao leitor como recebeu a alcunha de Dom Casmurro. A expressão fora inventada por um jovem poeta, que tentara ler para ele no trem alguns de seus versos. Como Bento cochilara durante a leitura, o rapaz ficou chateado e começou a chamá-lo daquela forma.

O narrador inicia então o projeto de rememorar sua existência, o que ele chama de "atar as duas pontas da vida". O leitor é apresentado à infância de Bentinho, quando ele vivia com a família num casarão da rua de Matacavalos.

O primeiro fato relevante narrado é também seu primeiro motivo de preocupação. Bentinho escuta uma conversa entre José Dias e dona Glória: ela pretende mandá-lo ao seminário no cumprimento de uma promessa feita pouco antes de seu nascimento. A mãe, que já havia perdido um filho, prometera que, se o segundo filho nascesse "varão", ela faria dele padre. Na conversa, dona Glória soubera da amizade estreita entre o menino e a filha de Pádua, Capitolina.

Bentinho fica furioso com José Dias, que o denunciara, e expõe a situação a Capitu. A menina ouve tudo com atenção e começa a arquitetar uma maneira de Bentinho escapar do seminário, mas todos os seus planos fracassam. O garoto segue para o seminário, mas, antes de partir, sela, com um beijo em Capitu, a promessa de que se casaria com ela.

No seminário, Bentinho conhece Ezequiel de Souza Escobar, que se torna seu melhor amigo. Em uma visita a sua família, Bentinho leva Escobar e Capitu o conhece.

Enquanto Bentinho estuda para se tornar padre, Capitu estreita relações com dona Glória, que passa a ver com bons olhos a relação do filho com a garota. Dona Glória ainda não sabe, contudo, como resolver o problema da promessa e pensa em consultar o papa. Escobar é quem encontra a solução: a mãe, em desespero, prometera a Deus um sacerdote que não precisava, necessariamente, ser Bentinho. Por isso, no lugar dele, um escravo é enviado ao seminário e ordena-se padre.

Bentinho vai estudar direito no Largo de São Francisco, em São Paulo. Quando conclui os estudos, torna-se o doutor Bento de Albuquerque Santiago. Ocorre então o casamento tão esperado entre Bento e Capitu. Escobar, por seu lado, casara-se com Sancha, uma antiga amiga de colégio de Capitu. Capitu e Bentinho formam um "duo afinadíssimo".

Essa felicidade, entretanto, começa a ser ameaçada com a demora do casal em ter um filho. Escobar e Sancha não encontram a mesma dificuldade: têm uma bela menina, a quem colocam o nome de Capitolina.

Depois de alguns anos, Capitu finalmente tem um filho, e o casal pode retribuir a homenagem que Escobar e Sancha lhe haviam prestado: o filho é batizado com o nome de Ezequiel.

Os casais passam a conviver intensamente. Bento vê uma semelhança terrível entre o pequeno Ezequiel e seu amigo Escobar, que, numa de suas aventuras na praia - o personagem era excelente nadador -, morre afogado.

Bento enxerga no filho a figura do amigo falecido e fica convencido de que fora traído pela mulher. Resolve suicidar-se bebendo uma xícara de café envenenado. Quando Ezequiel entra em seu escritório, decide matar a criança, mas desiste no último momento. Diz ao garoto, então, que não é seu pai. Capitu escuta tudo e lamenta-se pelo ciúme de Bentinho, que, segundo ela, fora despertado pela casualidade da semelhança.

Após inúmeras discussões, o casal decide separar-se. Arruma-se uma viagem para a Europa com o intuito de encobrir a nova situação, que levantaria muita polêmica. O protagonista retorna sozinho ao Brasil e se torna, pouco a pouco, o amargo Dom Casmurro. Capitu morre no exterior e Ezequiel tenta reatar relações com ele, mas a semelhança extrema com Escobar faz com que Bento Santiago o rejeite novamente. O destino de Ezequiel é infeliz: ele morre de febre tifóide durante uma pesquisa arqueológica em Jerusalém.

Triste e nostálgico, o narrador constrói uma casa que imita sua casa de infância, na rua de Matacavalos. O próprio livro é também uma tentativa de recuperar o sentido de sua vida. No fim, o narrador parece menosprezar um pouco a própria criação. Convence-se de que o melhor a fazer agora é escrever outra obra sobre "a história dos subúrbios".

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